terça-feira, 16 de agosto de 2022
Estoicismo - A fortaleza impenetrável de compreensão e virtude
terça-feira, 12 de julho de 2022
Tempo e maturidade na visão da fenomenologia
TEMPO E MATURIDADE
As crianças enxergam coisas que às vezes nem os adultos veem, quem é o mais maduro? Para Focault temos uma impressão que a maturidade carrega uma linha temporal reta, a infância é visto de um aspecto não evolutivo. Tenho a impressão que a totalidade do ser na sua maturidade expressa um caráter circular, onde há a interação do eu pequeno, com o eu atual.
Ignorar o passado ou superar uma vergonha que incomoda é o oposto de investigar e aceitar a imprudência, que de algum modo foi necessário para haver prudência. Aquele passado fez parte do ser, julgar bom ou ruim diante das causas e condições para as quais aquilo existiu enquanto fenômeno; seria atrevimento do homem diante da compreensão colossal do cosmos, das coisas e da sua própria formação. Não é necessário "superar" um amor ou uma infância, mais aceitar aquilo que foi, sentir e procurar formas criativas e únicas do indivíduo para aceitar o que é, o que foi, e o que quer ser. Aceitar é um trabalho de honestidade consigo, e admitir mas não se render. O passado é uma constante comunicação com ser presente, e o vir-a-ser futuro.
O que é lúdico e abstrato tem aspectos das características infantis, que podem brilhar quando aplicadas pela experiência do tempo. Não é superado e sim recolocado, ressignificado pelo desenvolver do "eu", com as coisas, causas e sentidos.
Para ser comediante, poeta, músico, romântico, criativo é preciso ser um pouco infantil, ou até patético (no bom sentido). Para ser idealista de um mundo melhor, com ações sejam políticas ou individuais, é preciso ter um pouco ingenuidade de criança.
Lecionar, trabalhar ou educar crianças seria um trabalho de renovação aceitação da criança interna. Requisita ao educado algo de infantil, o suficiente para sustentar o caráter de amor e admiração a quem é educado. Parecendo infantil positivamente, remove obstruções e cria significados na existência do educador seja ele pai, professor, etc...
Traz o que lhe é o humano, forma o humano, dá leveza à vida. O recalque do paciente com raiva e sem paciência com crianças revela um ego afetado e não trabalho. Às vezes corresponde a mesma idade da criança que o incomodado perpassou.
" A criança pode manifestar compreensão profunda da realidade. Talvez as restrições que percebemos na criança não sejam apenas limitações próprias do período de infância, mas também correspondência à expectativa que temos das crianças. Delas não esperamos nada sério [...]. Outra mãe extremamente organizada, tem uma filhinha que não é nada ordeira. Um dia ela pediu para a filha pegar uma lancheira, mas a menina não encontrava. A mãe começou a dar bronca. 'Não é possível, você vive perdendo as coisas [...] o que é que vai ser amanhã?' . Quando ela parou para tomar o fôlego, a filha disse : " Você também perde!. Essa afirmação da menina era um terror para ela, tão organizada [...]. A mãe retrucou ' eu perco?'. E a menina : 'É você perde' (...) você perde a paciência'. Esse tipo de apreensão instantânea e imediata corresponde a um momento de maturidade, independente das características peculiares."
Na presença do sentido, tempo e maturidade. pp 123 - 124)
sábado, 2 de julho de 2022
Αμβροσιος (Ambrosios) - Doença do luxo
Αμβροσιος (Ambrosios)
Acumule bens, gaste tempo com coisas banais.
Acha que vivem bem, mais não consegue viver jamais. Se preocupe com os desejos que não o satisfaz.
Futuro cadaver em decomposição, as moiras ja sabem dessa sua ação. Elas tecem o que eles pedem.
Pedaço de verme em reação, criando ilusão , mantendo a vida invão.
Aquele que só quer o bem, não quer o seu bem, porque é o que convém a causa final do bem estar material.
Veja bem, bem material é bem vindo, o escravo do bem material que é o fodido, quando acumulado, não bem aplicado... se acha feliz, o espírito moribundo.
Com glória que esquece do seu futuro defunto.
Esquece com quem esteve bem, só esta bem consigo mesmo, bem estar estar vindo do desprezo. Cairá no esquecimento quando morrer naquele momento.
Na grécia antiga, esse daemon é a presença inimiga, inima da pólis, criadores de dores.
Sólon sem dúvida ia chutar sua bunda, de alma moribunda.
στάση (stásis) corrupta, morte bruta.
quinta-feira, 26 de maio de 2022
Ensaios do mar : Sobre a verdade (poesia + hermenêutica)
Há uma certa preparação para ouvir um tipo de oração.
É uma meditação sutil, ouvimos as batidas de um coração febril.
A dança ocorre, o barco... balança.
A oração afortuna aqueles que se desconfortam, porque estes reparam... os males que comportam.
A verdade é revelada pelos sentidos, apurados pelo mar... este... capaz de levar e elevar.
O desequilíbrio... é um passo para o marinheiro aprender a remar.
As vozes da natureza ressoam no íntimo, em um momento silencioso e nítido.
Começando pelo arrepio da derme, vem a vibração do espírito, onde tudo lhe cabe, onde tudo lhe serve,
onde tudo discerne.
A água revela, limpa e divide a verdadeira da falsa natureza.
A senhora da destreza, a água é a velha mãe sábia natureza.
Neste ambiente não se deve contaminar, nem se afogar, mas sim se limpar.
Se quero enxergar, a cara limpa é necessária. . .
A mística sempre esteve a me revelar
Nunca seja desonesto, porque as sereias do desejo, afundam o seu molejo,
como forma de protesto
A desnudez da alma entende a essência do ser, aquele ser que merecer.
O não ser, cabe-lhe afogar e lidar com as profundezas do mar.
Caso haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz materna, a
oração do mar é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita.
O silêncio é a voz do mar, onde se acalmam os gritos do espírito quando as ondas vão quebrar.
Água, sangue da terra.
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Hermenêutica ( Teoria do estudo da interpretação )
Aplicando hermenêutica cruzada
"Há uma certa preparação para ouvir um tipo de oração’’
A oração tem um aspecto sagrado e místico, estar pronto para
ouvir é educar a psique humana e também criar experiências, visto que o cérebro
tem padrões e condicionamentos fixados em redes neurais. Uma das formas de gerar a neuroplasticidade e novas sinapses é viver o momento presente, contemplativo que se abstêm do julgamento. Ouvir, entregar, flexibilizar é um ponto de partida
para que as novas experiências sejam incorporadas. Só é possível ouvir a
oração quando preparado para receber, interiorizando e não exteriorizando.
‘’A oração afortuna aqueles que se desconfortam, porque
estes reparam ... os males que comportam’’
O processo psíquico de entrar em contato com novos meios de experiência muitas vezes gera desconforto, a ideia é transpassar essa barreira relembrando a
dor e as dificuldades que se repetem. Reforçar o porque você esta procurando é potencializador de motivação para se
libertar.
“O desequilíbrio... é um passo para o marinheiro aprender a
remar” –
Desequilíbrio é o
choque que ocorre quando há uma nova informação e experiência. Aprender a remar
é adaptar se com o inédito, a psique estranha e tende a
rejeitar, como um leigo aprendendo um novo ritmo. Com uma fonte de inspiração
platônica, a segunda navegação que Platão aborda é um rompimento com as primeiras linhas de pensamento dos filósofos naturalistas \ pré socráticos. Navegar é a metáfora que se refere ao pensador. Ele é o marinheiro que tem o entendimento e execução do barco, tentando descobrir o desconhecido (novas terras)
“As vozes da natureza ressoam no íntimo, em um momento silencioso
e nítido. Começando pelo arrepio da derme, vem a vibração do espírito, onde
tudo lhe cabe, onde tudo lhe serve, onde tudo discerne” –
A introspecção analítica
necessita de um presente muito real, real para si. Inspirado em Heidegger, há
também uma experiência mística de ordem fenomenal quando a análise interna é
vocacionada ao lado sagrado “hermenêutica configura-se ao ser-aí como uma
possibilidade de vir a compreender-se e de ser essa compreensão” (HEIDEGGER,
Martin. Fenomenologia da vida religiosa Petrópolis: Vozes, 2010.)
‘’A água revela, limpa e divide a verdadeira da falsa
natureza. A senhora da destreza, a água é a velha mãe sábia natureza. Neste
ambiente não se deve contaminar, nem se afogar, mas sim se limpar. Se quero enxergar, a cara limpa é necessária.
. .’’
Aspecto semiótico dos elementos da natureza, a água é o elemento da emoção e da transparência que limpa e desdobra o que é, do que não é. A agua separa elementos falsos do ser. A segunda etapa é o fogo que transmuta e e faz a ascenção. A agua limpa o interior para o fogo elevar o exterior de um eu verdadeiro. Mudança harmoniosa , ascensão clara.
‘’A desnudez da alma entende a essência do ser, aquele ser
que merecer. O não ser, cabe-lhe afogar e lidar com as profundezas do mar. Caso
haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz materna, a oração do mar
é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita.’’
Sereias do desejo, uma referência a Odisseia. As sereias são a representação dos impulsos e desejos inconscientes. Odisseu amarra-se no mastro para não ceder aos impulsos obscuros do mar. Significa proteger-se de si mesmo, esse simbolismo denota a capacidade de auto avaliar (Heidegger) impondo limites nocivos. Lembremos que toda natureza tem seu aspecto sombrio, e a escuridão do mar é o mais profundo instinto de emoções que podem afogar Odisseu. O molejo representa autos sabotagem e autoengano, é um processo que a sombra no subconsciente encontra para se emergir e dominar. Uma justificativa para decidir errado, o molejo é a “malandragem” que a pessoa faz consigo convencendo-se que tem o controle e que pode “dar um jeitinho” e ainda se sair bem. A vontade sexual da qual você sabe que arriscaria, é insano e impossível ter um ato sexual com uma sereia, porque é um monstro e claramente é uma armadilha, assim como Odisseu foi avisado. Para os gregos as condutas são muito claras, como podemos entender a palavra eudamonia de Aristóteles.
Não muito distante da nossa realidade, Homero e Hesíodo já
relatavam os problemas de emoção, desejo e ilusão. Você ama alguém, sabe que perigoso ou impossível e se entrega ao canto fictício da sereia.
“Caso haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz
materna, a oração do mar é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita. “
Novamente a conversa
interna é a autoanálise, “pratos limpos” abrem espaço para o novo ser, que já é,
mas que não veio a ser. Não é possível ser outro, a mudança não incorpora outra
personalidade. Parmênides afirma “O ser é todo inteiro - se o ser tivesse
partes, algo nele seria separado, não fazendo parte do ser” “o ser é, o não ser
não é” uma frase que a princípio óbvia, mas a mensagem paradoxalmente complexa.
A personalidade nossa é fixa. Mudar a si não é ser outro, mas remodelar, criar sinapses que descobre novas formas do eu que não foi explorado. A versão aprimorada de si, no oculto que agora é emergido.
“Caso haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz
materna, a oração do mar é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita”
Voz materna carrega o arquétipo da “Anima” do psicanalista Carl Jung, anima é o lado feminino inconsciente do homem, sendo um tabu para os homens com medo de perder a virilidade. Para ocorrer todo processo desta hermenêutica é preciso trabalhar o sentimento, parte do universo feminino, a água é delicada, fluida, misteriosa, independente e seletiva. Quando você joga água sobre a mão aberta, grande parte do líquido cai, mas alguns resquícios ainda ficam na mão e absorvem a pele. Isso é a capacidade de decidir e selecionar. Característica presente no universo feminino, quem escolhe e decidi os laços amorosos é a mulher (claro com exceções). Toda decisão correta a tomar demanda transparência que carece de emoção honesta, escolhe e absorve como a água. Quando é falso a água solidifica, vira gelo. Caso a água sofra de um fogo (masculino) dominador e sobreposto desenfreadamente, evapora.
“Água, sangue da terra”
A água é o pulso vital, o sangue que corre dos seres e a
terra é o corpo, a estrutura, o equilíbrio e ancoragem que possibilita o elemento líquido transbordar.
Curiosidade: No folclore romeno a figura o strigoi” (romano
strix, latim “striga” pássaro que grita em nome da vítima) conhecido como vampiro;
não poderia atravessar um curso de água corrente, pois será enfraquecido, sugado
e aprisionado por ela, podendo ficar sem saída até o amanhecer. Em algumas
versões essa criatura tem o risco de extinção caso olhe para o seu reflexo na água,
ocorre um choque do antinatural ao encontro do elemento natural, revelando o
profano, extinguindo o falso.
quinta-feira, 3 de março de 2022
Paidéia
Paideia
O nome paideia refere-se ao processo educativo em que os gregos da antiguidade desenvolveram para direcionar o seu meio civilizatório de forma consciente, com camadas éticas e sociais. Este processo age estruturalmente e dispõe de diversos campos do conhecimento, no entanto, por mais diferentes que sejam as áreas do conhecimento, a estrutura tem um princípio: compreender a natureza humana.
Educação é um fator determinante em um grupo social, reflexo de formas e ações que ocupam e interagem com todos os elementos fundamentais da vida. Observando o organismo civilizatório grego conseguimos entender as bases necessárias para o crescimento de uma nação virtuosa e também espiritualizada seja em esferas sociais e privadas. Notamos que as palavras: virtude, ética, estado, política e sabedoria estão sempre integradas, onde se concentram em uma certa manifestação de espiritualidade e transcendência. Estas são as "necessidades vitais" para os gregos. O autor retrata aspectos que o ocidente se diferencia dos outros, com um marco histórico que renova o processo civilizatório de todo seu lado. Werner Jaeger define a paidéia como "forças conscientes do espírito (...) que estruturam no coração humano as mais altas formas de cultura''.
As forças que compõem a estrutura educativa se devem por conta da busca de um propósito. O propósito do indivíduo para si e para os outros, segundo o autor, essa seria a primeira "concepção do indivíduo em sociedade". E aqui podemos entende- la através da filosofia grega. É possível evidenciar o porquê que esta civilização conseguiu construir as bases humanas de forma disciplinada e organizada, ainda por uma contemplação e inspiração do espírito.
No começo da formação do pensamento grego a filosofia nasce por um princípio, a procura do ἀρχή Arché (origem). O arché é a essência das coisas, a origem que responde também a um entendimento de algo maior, "o todo", que possui uma função chamada de λόγος (logos) ordenada pelo κόσμος (Kosmos). Kosmos tem uma estrutura, organização e propósito. Uma nação que compreende o divino metafísico como ordem e organização, procura a clareza e excelência na construção das relações sociais e na própria educação. Assim a filosofia começa com a procura do Arché (causa de todas as coisas) que, em certo momento, participa no papel social do estado, das artes e das ciências.
Podemos entender que a busca de sentido de toda existência é integral no papel coletivo, a política e o estado são entidades ligadas a uma ideia metafísica, porque significa algo que direciona e ordena (kosmos). Diferente das outras culturas, este elemento não depende de figuras místicas ou mitológicas e sim como uma ideia de consciência representativa do divino, da luz do saber e do esclarecimento. É uma procura pelo entendimento por trás das coisas, sejam elas complexas ou até mesmo as consideradas menores, “inúteis”. Porque depende de um saber desinteressado, pois há uma vocação pela curiosidade que não é inútil. A descoberta naquele contexto aproximava cada vez mais a conexão com o divinosagrado. Fazer parte desta ordenação universal do ''kosmos'' é estabelecer indivíduos que procuram desenvolver as suas faculdades mentais colaborando com propósito e excelência.
O papel da construção coletiva entende-se como um encaixe correto de peças dos indivíduos em uma engrenagem maior do kosmos. O homem que também procuraria a sua fluidez no mundo. Como veremos em Aristóteles na obra "Ética a Nicômano"
O marco que sofistica e refina a ideia de cidadania grega é a formação de um pensamento não individualizado. O conceito da subjetividade pertencia a uma Φύσις (Physis) natureza que atinge a consciência de si mesmo pelo caminho do espírito onde se estabelece leis e normas, pensamento e forma. A physis que pela definição do autor representa uma "Conexão viva pelo qual tudo ganha posição e sentido". É a "concepção orgânica" do qual membros fazem parte de um todo, criando as ''leis do real''. Estas leis ordenam a linguagem e as formas de arte como uma "estrutura natural amadurecida, originária e orgânica", sempre integrada ao coletivo e a ideia de progresso cidadania e compreensão da mesma. Em suma, o que eles enxergavam como fenômenos naturais também poderia elucidar respostas para fenômenos humanos.
O caráter artístico dos gregos constitui a representação de sentimentos universais encontrados na psique humana. Seja pelas artes plásticas, arquitetônicas e literárias. Na mitologia grega existe uma fonte rica de representações de comportamentos, visto que os deuses possuíam características e sentimentos humanos. A própria mitologia grega é uma fonte de referência para explicar conceitos abstratos, como Platão no “ mito de Er” do livro X e nos diálogos do Fedon . A psicologia também empregará alguns dos mitos, Freud para explicar o complexo de édipo (“A interpretação dos sonhos’’ 1899). E claro observamos influência de Homero, visto que ele seria a raiz destes conhecimentos mitológicos, poéticos e existenciais. Na literatura e nas artes cênicas Homero é colossal, temos o exemplo da influência trágica das obras de Sheakspeare, onde há um crescimento narrativo e literário do modelo ocidental. A tragédia grega é presente nas peças de teatro e cinema, se não houvesse tragédia, não haveria bilheteria. Também observamos uma fórmula de estrutura narrativa, a jornada do herói (monomito) (CAMPBELL, JOSEPH. 1948 . "O Herói de mil Faces" ). Notamos um forte entendimento de como realizar uma oratória articulada, esta é definida por Wener Jaeger como "Um amadurecimento das leis que governam o sentimento e a linguagem" A Filosofia grega carrega desta influência da arte e poesia, o surgimento de recursos fantásticos e míticos carregavam consigo a substância do arché humano e social. Os Gregos, além da Φύσις (Physis), tinham uma percepção de leis universais o ''λόγος'' (Logos) sendo uma entidade metafisica que elabora o processo de construção da consciência, sabedoria e descoberta. O logos organizaria e esclareceria o conhecimento da physis, como uma força racional que algum momento entra em contato com o indivíduo, ou pela sabedoria o individuo o acessa. Importante ressaltar que para os pensadores daquela época não havia distinção entre ciências humanas e ciências naturais. Como visto anteriormente, as respostas eram conectadas, o que poderia ser descoberto na "physis" também servia de aplicação em relações humanas, visto que o logos possui uma linguagem ordenada, representativa e universal. A natureza (Physis) possui uma essência (Arché) que responde aos princípios e formas da vida. Estes elementos dependem de uma razão universal direcionada, esclarecida e regulada por um λόγος (logos). Logos, mesmo que tenha um valor abstrato e metafísico, só pode ser sentido e compreendido através da razão. É algo tangível, alcançável e não separado. Esta é uma postura antropológica que responde muito ao avanço quanto à ideia de educação e civilização. Porque tendo consciência que é possível transgredir o caminho sacro pela razão, ela é o ponto de partida para todas as coisas, e para os “não-sacros” o logos vira uma representação simbólica (e ainda que em nível simbólico) incorpora no cidadão grego a admiração e o amor pela sabedoria e razão.
No sentido antropológico, o autor retrata o homem grego como "Antropoplástico", ou seja, um homem que consegue modelar o homem, o conceito e modelagem do desenvolvimento humano seja no corpo, nas artes, na razão e em qualquer campo de nossa natureza.
Considerando toda essa composição da nossa formação humana, diante do berço da civilização, Werner Jaegerz aponta algo importante: a influência grega não deveria ser considerada algo distante de nós. Muitas vezes o objeto de origem (o ''clássico'' seja na cultura, na música, no pensamento e em outros aspectos) remete a ideia de distância, muitas vezes inalcançável. O espírito civilizatório e de aprendizado é universal, porque também somos racionais e somos capazes de sentir o fenômeno de contemplação (travmatízo) em relação à verdade. (Travmatízo) é um termo grego que significa “espantarse” ou “traumatizar-se” com as dúvidas e descobertas nas questões que realmente importam para a vida. A razão grega sustenta uma posição filantrópica, sincera e ousada. A ousadia em questionar e criar laços com a natureza e com a humanidade não é utópica ou ideal, a nossa racionalidade consegue atravessar horizontes, estes que colaboram tanto nos campos da subjetividade quanto na exterioridade. Como foi dito anteriormente, a mentalidade grega compreende a espiritualidade de forma integrada, através dos pilares da trindade grega: o poeta, o homem do estado e o sábio. A ideia de virtude é sólida, onde existe a honra em ser cidadão; mais que isso, existe a honra em ser o cidadão que participa de um coletivo, representado por uma transcendência racional de natureza cosmológica.
Talvez este o conceito que se mostra mais distante na sociedade moderna, ver a integração das áreas e a procura de esclarecimento e contemplação do próprio.
O autor então, evidencia esta grande problemática que anda presente no nosso sistema educacional, entendemos que a "virtude social grega" é uma referência, mas que está distante de uma realidade, porque se contrapõe por problemáticas modernas. Entende-se deste modo que o papel da pedagogia como estudo e efetivação acabaria não acreditando em seu propósito, muito menos em seu potencial como sistema educador. Areflexão é válida inclusive para todos os campos do conhecimento, cabe perguntarmos a pergunta essencial: para aonde vamos com esta informação? Qual o propósito disto? Como podemos aplicar? além disso, como podemos incorporar esse saber?.
São perguntas que direcionam todas as ciências para um caminho ético, consciente e humanitário. Tanto a filosofia, a pedagogia e outras áreas do conhecimento humano, tem cada vez mais o papel fundamental em identificar a necessidade e propósito de determinado conhecimento. Isto porque todos nós temos uma racionalidade capaz de alcançar esclarecimento e direção. Porque somos capazes de sentir e viver a composição e ordenação harmônica do κόσμος (Kosmos).
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
Maquiavel - Os Fins Justificam os meios? (Revisado!)
[Este texto para permite que você pule até o final na conclusão se quiser]
Nicolau Maquiavel é um dos primeiros que contribuiu no fundamento para o conceito de estado. Sendo primordial na ciência política, estratégias de guerra e gerenciamento de pessoas. Sua repercussão foi a síntese do pensamento político de Thomas Hobbes, que teria um estado como definição, dando segmento depois à John Locke e Rosseau.
Rudá Raoni - O homem dos Lobos (Esboço do conto)
Apenas uma introdução de um conto inspirador! (Podendo até virar um livro)
Prólogo
Um curandeiro que carrega o nome Rudá Raoni, um entre os pajés mais sábios de sua região local, teve uma previsão tão clara que viraria uma profecia. Apesar da profecia parecer não ter sentido, ou até mesmo correr por caminhos que poderiam subverter valores da tradição local. Entre as bocas da tribo, soava como uma profanação. Entre os mestres, uma dúvida. Entre os sábios, uma certeza. Entre mestres sábios, uma verdade. Quebra de valores consiste também em mudanças para iluminar o mundo. Nos feixes de luz emanados pelo espírito dos mestres e anciões das mais antigas religiões, carecem de forças mutáveis não tradicionais. A espiritualidade se renova assim como o mundo material. É bem provável que alguns feixes de luz já estão desgastos, manjados. São necessários novos métodos, novas emanações vibracionais, novas cores de luz, novos meios de se criar caminhos, novos caminhos para se criar meios.
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Por onde Rudá andava, os lobos o seguiam, dois. Baltor tinha pelos brancos como a neve, com olhos vampíricos. Podia ver os mortos e espíritos obsessores. O homem dos lobos possuía um olho deles, do qual havia trocado o seu com seu animal. Mas para poder ver através da visão dr Baltor, era necessário o mesmo estar ao seu lado. Atravéz dos olhos da morte, Rudá encaminhava os malfeitores com cantos e rezos realizados pelo sopro do tabaco. Com o sopro correto podia direcionar as almas que aceitariam o livramento das sombras que predominantes
Ankor tinha pelos marrons terracota, lembravam as montanhas navajo. Os olhos as vezes ficavam tão escuros que em alguns momentos ocultava a sua pupila. Carregado de segredos, eram olhos que despertava a curiosidade dos homens insensatos. Ankor também era outro que tinha um de seus olhos trocados com o Pajé. Os olhos de Ankor serviam para equilibrar os olhos de Baltor. Um olhar branco veria almas e espíritos. Um olhar marrom veria a terra e as ancoragens. Ancoragem a matéria para ver a realidade física, ver a essência e natureza por trás das matas ou por trás das coisas. Olhos da terra, olhos da morte, um branco, outro marrom. A combinação da dança vida.
A Profecia
Enquanto Rudá colhia o pé de tabaco em uma tarde ensolarada, ao tocar na planta escuta sua voz. Grande voz do pai e avô tabaco. A voz dizia:
- Filho sabes que tem uma missão final por aqui. Aprendeu tudo que já precisava, mas há uma última lição. Saiba que vamos atender o seu pedido. Poderá partir após completar a tarefa final. Para haver um novo ciclo, dando início outras tarefas finais. Para o fim do ciclo dando início a outras tarefas iniciais. Sem resposta sem fim ou início, apenas sentido, um dia fará sentido.
O pajé disse:
- Meu pai, não desejo partir. Tenho amor a este mundo, tenho amor a ti, a mãe e aos seres.
A planta responde
- Seu desejo sem resposta sem fim ou início, apenas sentido, um dia fará sentido. Assim ja foi dito.
- Tal desejo não veio ainda, entendo. Só não entendo por que desejar acabar com uma vida antes de seu tempo.
- Seu desejo sem resposta sem fim ou início, apenas sentido, um dia fará sentido. Assim já foi dito. Não alimente pensamentos, apenas movimentos. Sexta-feira é lua cheia, seu movimento é preparar o chá da mãe e amassar as folhas do pai. Da chacrona, da Mariri e do tabaco, iremos lhe mostrar.
- Assim foi dito. Apenas movimentos, entendido.
As barbas grisalhas de Ruda Raoni, cobriam quase todo pescoço, representava um sinal de uma vida com muito aprendizado. Correspondiam a atitude, equilíbrio e consciência. Assim ele seguiu, sem alimentar pensamentos apenas atitudes. Começa procurando lenha para cortar e procede na criação de seu rapé, retirado do tabaco que o comunicou. Prepara seu tabaco com rezos específicos e prepara o chá da mãe, retirado da chacrona e do mariri.
No dia seguinte, devido ao seu respeito na grande aldeia, ele reúne os curandeiros mais velhos e diz:
- Meus irmãos anúncio a vocês um chamado. Minha missão agora é abrir uma cerimônia, aberta apenas entre os curandeiros mais antigos. Se sentirem no coração o meu chamado, se for do meu merecimento, aceito entre vocês... a cerimônia será daqui a 3 dias, em lua cheia. Já tenho todos os preparativos em minha casa, temos lenha para fogueira, rapé, sanânga, tabaco e coragem.
Anori, o mais antigo e respeitado da tribo, (nome que se dava a tartaruga Tracajá ) disse:
- Raoni, Rudá Raoni meu irmão, tem respeito aqui na tribo, tem bons feitos. Tem olhos da morte, olhos da vida e mais importante, tem disciplina.
Com uma voz mais grossa, alta e forte ele prossegue:
- Aquele que não vier em sua cerimônia, será punido através das leis do pai dos pais, do criador de todos. Seja morte ou não, nós apenas lançamos a justiça divina. Sabe que não fazemos nada sem ela, nós os mais velhos só direcionamos as situações para que a justiça seja feita!
- Eu Já sei Raoni que viria anunciado, e como disse nosso mestre...
Os dois olharam entre si com foco e seriedade. Disseram em simultâneo.
"Assim foi dito!"
A cerimônia
Algumas horas antes de dar meia-noite, o fogo já estava alto carregado de fenômenos incomuns. Um deles foi as chamas que tomavam formas quase cilíndricas com pontiagudas que se dispersavam ao bater do vento, criando faíscas barulhentas e nervosas. Trazendo algum tipo de aviso. Em volta da fogueira haviam 12 curandeiros, parecido como uma espécie de parlamento ou alto conselho. Entre eles, dois anciões chefes que tomavam as decisões e direcionamentos. Ficaram um em cada ponta do círculo. O primeiro é Anori e o segundo, seu irmão Iberê. Viviam entre os 70 a 80 anos ambos tinham uma saúde juvenil com cara de 60 anos.
Aos arredores do centro da aldeia haviam matagais de grande largura e comprimento. O horário noturno era até propício para os nativos se perderem fora da aldeia, considerando os perigos, era proibido sair até determinada hora. O próprio Rudá poderia se perder, assim como muitos. Para dar acesso ao caminho da aldeia havia apenas uma trilha, criada em uma entradinha secreta sendo vigiada por dois arqueiros.
Foi decidido que o ritual seria feito no ambiente externo, localizado no centro da aldeia. Era também um espaço mágico, cercado por pedras protetoras e símbolos de selamento, para que não entre nenhum mal.
Os doze curandeiros estavam lá, Anori e Iberê ficaram na ponta da roda sentido norte enquanto Rudá se fixou a outra ponta, no sul. Iberê tinha um olhar fixo e quase desagradável frente ao xamã com olhos de lobos. Havia uma desconfiança, aquela do tipo onde "os santos não batem".
Falando um pouco deste ancião chefe, Iberê é um dos decisores pela tribo, assim como seu irmão Anori. Diferente do irmão que admira a personalidade forte e um tanto subversiva de Rudá, Iberê carregava um ciumes do irmão pelo homem com olhos de lobos. Também não podemos esquecer que o irmão de Anori preservava muito o zelo pela cultura e tradição de seu povo, tudo que diferia tornava-se ameaça para o futuro da tribo. Alteridade era natureza de Raoni, e o irmão de Iberê tinha uma intuição de que isso seria necessário para o futuro da tribo. Gostava da ideia de mudanças, andava maior parte com Raoni ao invés de Iberê.
Na cerimônia Raoni disse
- Todos vocês podem desconfiar, discordar ou não gostar de mim irmãos. Contudo, por respeito a cerimônia, aqueles que levantam olhares hostis e alimentarem pesamentos hostis do que diz respeito a minha pessoa; em nome da medicina e de todo espaço sagrado aqui dirigido, é necessário pedir perdão e correção de imediato.
Todos olharam para o norte em busca de orientação dos chefes. Iberê ficou desconcertado, olhou para baixo e depois olhou para o fogo. Anori sentiu que a mensagem foi para Iberê devido aos impasses de ambos, que eram muito rotineiros em cerimônias. Em seguida disse:
- Escutaram o homem! Quem tiver algum problema com Raoni que tomem atitude e se resolvam com ele, mas não neste espaço sagrado, muito menos em cerimônia. Aquele também que é mal visto diante do outro, deve se analisar. Deve ter compreensão por aquele que o rejeita, porque aqui ninguém é santo.
A cerimônia começou, depois de algumas horas as visões vieram no sopro de tabaco de Raoni. Anori estava muito conectado com o propósito e também sentiu que a mensagem sairia após o sopro. O homem com olhos de lobos pronunciou suas palavras com uma voz bem grossa, séria e forte, tom quase gutural, o som que saía ecoava o círculo, seus olhos começaram a criar luminosidade e os lobos uivavam carinhosamente, fazendo um som de fundo:
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