terça-feira, 16 de agosto de 2022

Estoicismo - A fortaleza impenetrável de compreensão e virtude

 




Estoicismo vem da palavra grega “stoá” que significa pórtico (aqueles que ficam embaixo do arco),  local onde surgem os primeiros pensamentos desta corrente. Fundada por Zenão de Cítio, o estoicismo surgiu no período helenístico, orientado por um pensamento que rompe radicalmente com a ideia de pólis. A pólis que vivia no âmago do cidadão grego no qual se centralizavam as atividades filosóficas, políticas e culturais. Não era mais um princípio para o estoicismo (e outras correntes helenísticas). A verdade não está mais no coletivo, não pode ser alcançada por um coletivo e nem mesmo age ou revela-se sobre ele, mas sim individualmente. A primazia da verdade estoica é o bem-estar da alma, a saúde e o equilíbrio possível e até o distanciamento político. A diplomacia e a tentativa de manter uma pólis organizada pode causar perturbação e tende a ser instável. Como diz de Epíteto: "De todas as coisas existentes, algumas estão sob o nosso poder, outras não”. A sabedoria estoica neste caso, é ter  consciência e maturidade para perceber que a conivência com o sofrimento reside na tentativa de controlar alguém, algo ou o estado. Expectativa, desejo e controle  geram frustração. A pólis significava procurar a felicidade pelo bem-estar comum, no entanto, para Epiteto e outros pensadores não se deve buscar a felicidade fora, mas sim dentro.

O estoicismo teve maior difusão no império romano através de Sêneca, Marco Aurélio e Epiteto e Cícero (que traduziu a filosofia  para o latim). Apesar da linha filosófica acometer na ideia do bem-estar coletivo,  de um estado como uma causa final e não individual. A ontologia estoica entende o mundo gerenciado por um logos (razão universal) ordenado que controla todo cosmos (universo). Tudo que acontece, acontece por uma razão, cada um tem o papel a cumprir, um devir, um vir a ser. O logos é uma matéria sutil que adentra em todos os corpos ligados a experiência. É o cálculo perfeito de forma que, dos menores aos maiores fenômenos; as suas interações em decorrência de fatos são regidas por esta razão. Há um nível colossal destes fenômenos se comparado ao indivíduo; tendem a incompreensão dos limites de uma mente humana, tal como a φαντασία (phantasia) que gera a impressão ilusória da realidade. Já a impressão da mente é denominada φάντασμα, phantasma (fantasma), significa “aparição de coisas extraordinárias, fontes de ilusão e imagens sem consistência. Ilusão de ótica".

É natural do ser humano julgar o certo e o errado, e muitas vezes a impressão errônea curiosamente corrige-se em um jargão popular: “o mundo não gira em torno de você”... mas você gira em torno do mundo, maior que você e maior que a sua mente. Diante da imensidão do universo, seria presunçoso julgar o acontecimento dos fatos como justos ou injustos. A injustiça é injusta para os olhos humanos, mas para o logos, o todo tem um papel no universo. Observar os fatos com amplitude, entender o sentido dos acontecimentos diante do devir, tal compreensão sobre as interações da vida, para os estoicos é chamado φαντασία καταληπτική (Phantasia Kataléptica). Significa a procura de uma representação fidedigna, com que grau conhecemos, e se estamos conhecendo realmente. É a percepção da realidade como tal, de  modo que, ainda, sim, percebe-se em uma pequena fração, uma amostra por uma da cópia da verdade.  Para isso existe o termo  "anima mundi" do latim (Alma do mundo) em grego ψυχή τοῦ παντός (psychḗ tou pantós) é um conceito cosmológico geral, mas contém diversas conotações por linhas filosóficas e até mesmo escritores literários. Para os estoicos é o lugar do próprio cosmos, arché (essência) ou princípio fundamental da vida e força vital que insere os papeis, ações e interações para criar o equilíbrio e harmonia. A alma é integrada a esta força e inseparável dela,  no qual o universo e o divino se manifesta.  

Há uma figura um tanto peculiar neste meio filosófico, Marco Aurélio da dinastia nerva antonina (Os cinco bons imperadores, segundo Maquiavél) foi estoico e escreveu em seu diário experiências pessoais, carregadas de filosofia e auto-entendimento. Tais anotações resultaram um livro chamado “meditações”. O fato é que o estoicismo era um solo fértil para o império romano, mas seria legítimo um imperador responsável por um estado imenso, pela opinião pública e por interações coletivas praticar o estoicismo? Sim. Marco Aurélio elegido a imperador, tem este papel no universo, procurava agir de acordo com as leis do logos. Vale ressaltar que para ele o domínio e o controle sobre Roma não seria objetivo, mas de fazer o melhor,  o correto e agindo no que é possível.  Reconhecendo que a sua felicidade e o seu equilíbrio interno é o precedente que permite a execução de funções políticas de maneira virtuosa. O estoicismo é conveniente para Roma no sentido de justificar a existência de um império porque há uma razão para existir, e até mesmo justificar as injustiças de um império.

Em relação aos papéis, a vida é como se fosse um teatro, o diretor é o logos, o teatro é o cosmos e os atores, são os protagonistas da vida que se submetem ao diretor. A função do homem então é atuar o seu papel da melhor forma, há um certo naturalismo determinista na distribuição destes papéis. A ἀρετή (areté - virtude moral) estoica demanda uma compacticidade do ser com o logos. É a sintonia, que em sua etimologia, do  grego Syn-tonos que significa força-igual, força-junto. É seguir a lei natural no justo e injusto que se apresentam. Há uma obrigação moral para o cumprimento do cosmos, a reta razão (essência de virtude ou justo meio)  exprime a obrigação de não se corromper pelos vícios, assim como a Ἀταραξία (ataraxia) traduzida como ausência de inquietude ou preocupação. Ceder aos vícios e desejos é fugir, negligenciar e negar as adversidades da vida.  A não aceitação e o não comprometimento além de corromper a saúde e moral do indivíduo  se opõe ao logos que apresenta os desafios, adversidades, perdas e sofrimentos por uma razão maior. Há um comprometimento com o chamado do logos para sua função que deve submeter-se ao dever. A palavra εὐδαιμονία (eudaimonia) felicidade e bem-estar cunhou ao estoicismo um significado com a máxima “viver de acordo com a natureza” o estoicismo. Sabedoria prática da vida, a φρόνησις (phronesis) significa prudencia ou sabedoria mencionada em Aristóteles.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Tempo e maturidade na visão da fenomenologia

TEMPO E MATURIDADE 








As crianças enxergam coisas que às vezes nem os adultos veem, quem é o mais maduro? Para Focault temos uma impressão que a maturidade carrega uma linha temporal reta, a infância é visto de um aspecto não evolutivo. Tenho a impressão  que a totalidade do ser na sua maturidade expressa um caráter circular, onde há a interação do eu pequeno, com o eu atual.

Ignorar o passado ou superar uma vergonha que incomoda é o oposto de investigar e aceitar a imprudência, que de algum modo foi necessário para haver prudência. Aquele passado fez parte do ser, julgar bom ou ruim diante das causas e condições  para as quais aquilo existiu enquanto fenômeno; seria atrevimento do homem diante da compreensão colossal do cosmos, das coisas e da sua própria formação. Não é necessário "superar" um amor ou uma infância, mais aceitar aquilo que foi, sentir e procurar formas criativas e únicas do indivíduo para aceitar o que é, o que foi, e o que quer ser. Aceitar é um trabalho de honestidade consigo, e admitir mas não se render. O passado é uma constante comunicação com ser presente, e o vir-a-ser futuro. 


O que é lúdico e abstrato tem aspectos das características infantis, que podem brilhar quando aplicadas pela experiência do tempo. Não é superado e sim recolocado, ressignificado pelo desenvolver do "eu", com as coisas, causas e sentidos. 


Para ser comediante, poeta, músico, romântico, criativo é preciso ser um pouco infantil, ou até patético (no bom sentido). Para ser idealista de um mundo melhor, com ações sejam políticas ou individuais, é preciso ter um pouco ingenuidade de criança. 


Lecionar, trabalhar ou educar crianças seria um trabalho de renovação aceitação  da criança interna. Requisita ao educado algo de infantil, o suficiente para sustentar o caráter de amor e admiração a quem é educado. Parecendo infantil positivamente, remove obstruções e cria significados na existência do educador seja ele pai, professor, etc... 


Traz o que lhe é o humano, forma o humano, dá leveza à vida. O recalque do paciente com raiva e sem paciência com crianças revela um ego afetado e não trabalho. Às vezes corresponde a mesma idade da criança que o incomodado perpassou.


" A criança pode manifestar compreensão profunda da realidade. Talvez as restrições que percebemos na criança não sejam apenas limitações próprias do período de infância, mas também  correspondência à expectativa que temos das crianças. Delas não esperamos nada sério [...]. Outra mãe extremamente organizada, tem uma filhinha que não é nada ordeira. Um dia ela pediu para a filha pegar uma lancheira, mas a menina não encontrava. A mãe começou a dar bronca. 'Não é possível, você vive perdendo as coisas [...] o que é que vai ser amanhã?' . Quando ela parou para tomar o fôlego, a filha disse : " Você também perde!. Essa afirmação da menina era um terror para ela, tão organizada [...]. A mãe retrucou  ' eu perco?'. E a menina : 'É você perde' (...) você perde a paciência'. Esse tipo de apreensão instantânea e imediata corresponde a um momento de maturidade, independente das características peculiares."

Na presença do sentido, tempo e maturidade. pp 123 - 124)



sábado, 2 de julho de 2022

Αμβροσιος (Ambrosios) - Doença do luxo










Αμβροσιος (Ambrosios) 

Acumule bens, gaste tempo com coisas banais. 

Acha que vivem bem, mais não consegue viver jamais. Se preocupe com os desejos que não o satisfaz.

Futuro cadaver em decomposição, as moiras ja sabem dessa sua ação. Elas tecem o que eles pedem. 

Pedaço de verme em reação, criando ilusão , mantendo a vida invão.

Aquele que só quer o bem, não quer o seu bem, porque é o que convém a causa final do bem estar material.

Veja bem, bem material é bem vindo, o escravo do bem material que é o fodido, quando acumulado, não bem aplicado... se acha feliz, o espírito moribundo.

Com glória que esquece do seu futuro defunto.

Esquece com quem esteve bem, só esta bem consigo mesmo, bem estar estar vindo do desprezo. Cairá no esquecimento quando morrer naquele momento.

Na grécia antiga, esse daemon é a presença inimiga, inima da pólis, criadores de dores. 

Sólon sem dúvida ia chutar sua bunda, de alma moribunda.

 στάση (stásis) corrupta, morte bruta.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Ensaios do mar : Sobre a verdade (poesia + hermenêutica)















Ensaio do mar: Sobre a verdade

Há uma certa preparação para ouvir um tipo de oração. 

É uma meditação sutil, ouvimos as batidas de um coração febril. 

A dança ocorre, o barco... balança.

A oração afortuna aqueles que se desconfortam, porque estes reparam... os males que comportam. 

A verdade é revelada pelos sentidos, apurados pelo mar... este... capaz de levar e elevar.

O desequilíbrio... é um passo para o marinheiro aprender a remar. 

As vozes da natureza ressoam no íntimo, em um momento silencioso e nítido. 

Começando pelo arrepio da derme, vem a vibração do espírito, onde tudo lhe cabe, onde tudo lhe serve, 

onde tudo discerne. 

A água revela, limpa e divide a verdadeira da falsa natureza. 

A senhora da destreza, a água é a velha mãe sábia natureza. 

Neste ambiente não se deve contaminar, nem se afogar, mas sim se limpar. 

Se quero enxergar, a cara limpa é necessária. . .

A mística sempre esteve a me revelar 

Nunca seja desonesto, porque as sereias do desejo, afundam o seu molejo, 

como forma de protesto

A desnudez da alma entende a essência do ser, aquele ser que merecer. 

O não ser, cabe-lhe afogar e lidar com as profundezas do mar. 

Caso haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz materna, a 

oração do mar é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita. 

O silêncio é a voz do mar, onde se acalmam os gritos do espírito quando as ondas vão quebrar. 

Água, sangue da terra.

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Hermenêutica ( Teoria do estudo da interpretação )

Aplicando hermenêutica cruzada

"Há uma certa preparação para ouvir um tipo de oração’’

A oração tem um aspecto sagrado e místico, estar pronto para ouvir é educar a psique humana e também criar  experiências, visto que o cérebro tem padrões e condicionamentos fixados em redes neurais. Uma das formas de gerar a neuroplasticidade e novas sinapses é viver o momento presente, contemplativo que se abstêm do julgamento. Ouvir, entregar, flexibilizar é um ponto de partida para que as novas experiências sejam incorporadas. Só é possível ouvir a oração quando preparado para receber, interiorizando e não exteriorizando.

‘’A oração afortuna aqueles que se desconfortam, porque estes reparam ... os males que comportam’’

O processo psíquico de entrar em contato com novos meios de experiência muitas vezes gera desconforto, a ideia é transpassar essa barreira relembrando a dor e as dificuldades que se repetem. Reforçar o porque você esta procurando é potencializador de motivação para se libertar.

“O desequilíbrio... é um passo para o marinheiro aprender a remar” –

Desequilíbrio é o choque que ocorre quando há uma nova informação e experiência. Aprender a remar é adaptar se  com o inédito, a psique estranha e  tende a rejeitar, como um leigo aprendendo um novo ritmo. Com uma fonte de inspiração platônica, a segunda navegação que Platão aborda é um rompimento com as primeiras linhas de pensamento dos filósofos naturalistas \ pré socráticos.  Navegar é a metáfora que se refere ao pensador. Ele é o marinheiro  que tem o entendimento e execução do barco, tentando descobrir o desconhecido (novas terras)

“As vozes da natureza ressoam no íntimo, em um momento silencioso e nítido. Começando pelo arrepio da derme, vem a vibração do espírito, onde tudo lhe cabe, onde tudo lhe serve, onde tudo discerne” –

A introspecção analítica necessita de um presente muito real, real para si. Inspirado em Heidegger, há também uma experiência mística de ordem fenomenal quando a análise interna é vocacionada ao lado sagrado “hermenêutica configura-se ao ser-aí como uma possibilidade de vir a compreender-se e de ser essa compreensão” (HEIDEGGER, Martin. Fenomenologia da vida religiosa Petrópolis: Vozes, 2010.)  

‘’A água revela, limpa e divide a verdadeira da falsa natureza. A senhora da destreza, a água é a velha mãe sábia natureza. Neste ambiente não se deve contaminar, nem se afogar, mas sim se limpar.  Se quero enxergar, a cara limpa é necessária. . .’’

Aspecto semiótico dos elementos da natureza, a água é o elemento da emoção e da transparência que limpa e desdobra o que é, do que não é. A agua separa elementos falsos do ser. A segunda etapa é  o  fogo que transmuta e e faz a ascenção. A agua limpa o interior para o fogo elevar o exterior de um eu verdadeiro. Mudança harmoniosa , ascensão clara.

‘’A desnudez da alma entende a essência do ser, aquele ser que merecer. O não ser, cabe-lhe afogar e lidar com as profundezas do mar. Caso haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz materna, a oração do mar é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita.’’  

Sereias do desejo, uma referência a Odisseia. As sereias são a representação dos impulsos e desejos inconscientes. Odisseu amarra-se no mastro para não ceder aos impulsos obscuros do mar. Significa proteger-se de si mesmo, esse simbolismo denota a capacidade de auto avaliar (Heidegger) impondo limites nocivos. Lembremos que toda natureza tem seu aspecto sombrio, e a escuridão do mar é o mais profundo instinto de emoções que podem afogar Odisseu.  O molejo representa autos sabotagem e autoengano, é um processo que a sombra no subconsciente encontra para se emergir e dominar. Uma justificativa para decidir errado, o molejo é a “malandragem” que a pessoa faz consigo convencendo-se que tem o controle e que pode “dar um jeitinho” e ainda se sair bem.  A vontade sexual da qual você sabe que arriscaria, é insano e impossível ter um ato sexual com uma sereia, porque é um monstro e claramente é uma armadilha, assim como Odisseu foi avisado. Para os gregos as condutas são muito claras, como podemos entender a palavra eudamonia de Aristóteles.

Não muito distante da nossa realidade, Homero e Hesíodo já relatavam os problemas de emoção, desejo e ilusão. Você ama alguém, sabe que perigoso ou impossível e se entrega ao canto fictício da sereia.

“Caso haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz materna, a oração do mar é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita. “

Novamente a conversa interna é a autoanálise, “pratos limpos” abrem espaço para o novo ser, que já é, mas que não veio a ser. Não é possível ser outro, a mudança não incorpora outra personalidade. Parmênides afirma “O ser é todo inteiro - se o ser tivesse partes, algo nele seria separado, não fazendo parte do ser” “o ser é, o não ser não é” uma frase que a princípio óbvia, mas a mensagem paradoxalmente complexa. A personalidade nossa é fixa. Mudar a si não é ser outro, mas remodelar, criar sinapses que descobre novas formas do eu que não foi explorado. A versão aprimorada de si, no oculto que agora é emergido.

“Caso haja uma conversa interna, caso ouça lições de uma voz materna, a oração do mar é onde o espírito se deleita, onde a paz à espreita”

Voz materna carrega o arquétipo da “Anima” do psicanalista Carl Jung, anima é o lado feminino inconsciente do homem, sendo um tabu para os homens com medo de perder a virilidade. Para ocorrer todo processo desta hermenêutica é preciso trabalhar o sentimento, parte do universo feminino, a água é delicada, fluida, misteriosa, independente e seletiva. Quando você joga água sobre a mão aberta, grande parte do líquido cai, mas alguns resquícios ainda ficam na mão e absorvem a pele. Isso é a capacidade de decidir e selecionar. Característica presente no universo feminino, quem escolhe e decidi os laços amorosos é a mulher (claro com exceções). Toda decisão correta a tomar demanda transparência que carece de emoção honesta, escolhe e absorve como a água. Quando é falso a água solidifica, vira gelo. Caso a água sofra de um fogo (masculino) dominador e sobreposto desenfreadamente, evapora.

“Água, sangue da terra”  

A água é o pulso vital, o sangue que corre dos seres e a terra é o corpo, a estrutura, o equilíbrio e ancoragem que possibilita o elemento líquido  transbordar.

Curiosidade: No folclore romeno a figura o strigoi” (romano strix, latim “striga” pássaro que grita em nome da vítima) conhecido como vampiro; não poderia atravessar um curso de água corrente, pois será enfraquecido, sugado e aprisionado por ela, podendo ficar sem saída até o amanhecer. Em algumas versões essa criatura tem o risco de extinção caso olhe para o seu reflexo na água, ocorre um choque do antinatural ao encontro do elemento natural, revelando o profano, extinguindo o falso.



quinta-feira, 3 de março de 2022

Paidéia

Paideia











O nome paideia refere-se ao processo educativo em que os gregos da antiguidade desenvolveram para direcionar o seu meio civilizatório de forma consciente, com camadas éticas e sociais. Este processo age estruturalmente e dispõe de diversos campos do conhecimento, no entanto, por mais diferentes que sejam as áreas do conhecimento, a estrutura tem um princípio: compreender a natureza humana.

Educação é um fator determinante em um grupo social, reflexo de formas e ações que ocupam e interagem com todos os elementos fundamentais da vida. Observando o organismo civilizatório grego conseguimos entender as bases necessárias para o crescimento de uma nação virtuosa e também espiritualizada seja em esferas sociais e privadas. Notamos que as palavras: virtude, ética, estado, política e sabedoria estão sempre integradas, onde se concentram em uma certa manifestação de espiritualidade e transcendência. Estas são as "necessidades vitais" para os gregos. O autor retrata aspectos que o ocidente se diferencia dos outros, com um marco histórico que renova o processo civilizatório de todo seu lado. Werner Jaeger define a paidéia como "forças conscientes do espírito (...) que estruturam no coração humano as mais altas formas de cultura''. 


As forças que compõem a estrutura educativa se devem por conta da busca de um propósito. O propósito do indivíduo para si e para os outros, segundo o autor, essa seria a primeira "concepção do indivíduo em sociedade". E aqui podemos entende- la através da filosofia grega. É possível evidenciar o porquê que esta civilização conseguiu construir as bases humanas de forma disciplinada e organizada, ainda por uma contemplação e inspiração do espírito.

 No começo da formação do pensamento grego a filosofia nasce por um princípio, a procura do ἀρχή Arché  (origem). O arché é a essência das coisas, a origem que responde também a um entendimento de algo maior, "o todo", que possui uma função chamada de λόγος (logos) ordenada pelo κόσμος (Kosmos). Kosmos tem uma estrutura, organização e propósito. Uma nação que compreende o divino metafísico como ordem e organização, procura a clareza e excelência na construção das relações sociais e na própria educação. Assim a filosofia começa com a procura do Arché (causa de todas as coisas) que, em certo momento, participa no papel social do estado, das artes e das ciências.

Podemos entender que a busca de sentido de toda existência é integral no papel coletivo, a política e o estado são entidades ligadas a uma ideia metafísica, porque significa algo que direciona e ordena (kosmos). Diferente das outras culturas, este elemento não depende de figuras místicas ou mitológicas e sim como uma ideia de consciência representativa do divino, da luz do saber e do esclarecimento. É uma procura pelo entendimento por trás das coisas, sejam elas complexas ou até mesmo as consideradas menores, “inúteis”. Porque depende de um saber desinteressado, pois há uma vocação pela curiosidade que não é inútil. A descoberta naquele contexto aproximava cada vez mais a conexão com o divino￾sagrado. Fazer parte desta ordenação universal do ''kosmos'' é estabelecer indivíduos que procuram desenvolver as suas faculdades mentais colaborando com propósito e excelência. 

O papel da construção coletiva entende-se como um encaixe correto de peças dos indivíduos em uma engrenagem maior do kosmos. O homem que também procuraria a sua fluidez no mundo. Como veremos em Aristóteles na obra "Ética a Nicômano"

O marco que sofistica e refina a ideia de cidadania grega é a formação de um pensamento não individualizado. O conceito da subjetividade pertencia a uma Φύσις (Physis) natureza que atinge a consciência de si mesmo pelo caminho do espírito onde se estabelece leis e normas, pensamento e forma. A physis que pela definição do autor representa uma "Conexão viva pelo qual tudo ganha posição e sentido". É a "concepção orgânica" do qual membros fazem parte de um todo, criando as ''leis do real''. Estas leis ordenam a linguagem e as formas de arte como uma "estrutura natural amadurecida, originária e orgânica", sempre integrada ao coletivo e a ideia de progresso cidadania e compreensão da mesma. Em suma, o que eles enxergavam como fenômenos naturais também poderia elucidar respostas para fenômenos humanos.

O caráter artístico dos gregos constitui a representação de sentimentos universais encontrados na psique humana. Seja pelas artes plásticas, arquitetônicas e literárias. Na mitologia grega existe uma fonte rica de representações de comportamentos, visto que os deuses possuíam características e sentimentos humanos. A própria mitologia grega é uma fonte de referência para explicar conceitos abstratos, como Platão no “ mito de Er” do livro X e nos diálogos do Fedon . A psicologia também empregará alguns dos mitos, Freud para explicar o complexo de édipo (“A interpretação dos sonhos’’ 1899). E claro observamos influência de Homero, visto que ele seria a raiz destes conhecimentos mitológicos, poéticos e existenciais. Na literatura e nas artes cênicas Homero é colossal, temos o exemplo da influência trágica das obras de Sheakspeare, onde há um crescimento narrativo e literário do modelo ocidental. A tragédia grega é presente nas peças de teatro e cinema, se não houvesse tragédia, não haveria bilheteria. Também observamos uma fórmula de estrutura narrativa, a jornada do herói (monomito) (CAMPBELL, JOSEPH. 1948 . "O Herói de mil Faces" ). Notamos um forte entendimento de como realizar uma oratória articulada, esta é definida por Wener Jaeger como "Um amadurecimento das leis que governam o sentimento e a linguagem" A Filosofia grega carrega desta influência da arte e poesia, o surgimento de recursos fantásticos e míticos carregavam consigo a substância do arché humano e social. Os Gregos, além da Φύσις (Physis), tinham uma percepção de leis universais o ''λόγος'' (Logos) sendo uma entidade metafisica que elabora o processo de construção da consciência, sabedoria e descoberta. O logos organizaria e esclareceria o conhecimento da physis, como uma força racional que algum momento entra em contato com o indivíduo, ou pela sabedoria o individuo o acessa. Importante ressaltar que para os pensadores daquela época não havia distinção entre ciências humanas e ciências naturais. Como visto anteriormente, as respostas eram conectadas, o que poderia ser descoberto na "physis" também servia de aplicação em relações humanas, visto que o logos possui uma linguagem ordenada, representativa e universal. A natureza (Physis) possui uma essência (Arché) que responde aos princípios e formas da vida. Estes elementos dependem de uma razão universal direcionada, esclarecida e regulada por um λόγος (logos). Logos, mesmo que tenha um valor abstrato e metafísico, só pode ser sentido e compreendido através da razão. É algo tangível, alcançável e não separado. Esta é uma postura antropológica que responde muito ao avanço quanto à ideia de educação e civilização. Porque tendo consciência que é possível transgredir o caminho sacro pela razão, ela é o ponto de partida para todas as coisas, e para os “não-sacros” o logos vira uma representação simbólica (e ainda que em nível simbólico) incorpora no cidadão grego a admiração e o amor pela sabedoria e razão.

No sentido antropológico, o autor retrata o homem grego como "Antropoplástico", ou seja, um homem que consegue modelar o homem, o conceito e modelagem do desenvolvimento humano seja no corpo, nas artes, na razão e em qualquer campo de nossa natureza. 

Considerando toda essa composição da nossa formação humana, diante do berço da civilização, Werner Jaegerz aponta algo importante: a influência grega não deveria ser considerada algo distante de nós. Muitas vezes o objeto de origem (o ''clássico'' seja na cultura, na música, no pensamento e em outros aspectos) remete a ideia de distância, muitas vezes inalcançável. O espírito civilizatório e de aprendizado é universal, porque também somos racionais e somos capazes de sentir o fenômeno de contemplação (travmatízo) em relação à verdade. (Travmatízo) é um termo grego que significa “espantar￾se” ou “traumatizar-se” com as dúvidas e descobertas nas questões que realmente importam para a vida. A razão grega sustenta uma posição filantrópica, sincera e ousada. A ousadia em questionar e criar laços com a natureza e com a humanidade não é utópica ou ideal, a nossa racionalidade consegue atravessar horizontes, estes que colaboram tanto nos campos da subjetividade quanto na exterioridade. Como foi dito anteriormente, a mentalidade grega compreende a espiritualidade de forma integrada, através dos pilares da trindade grega: o poeta, o homem do estado e o sábio. A ideia de virtude é sólida, onde existe a honra em ser cidadão; mais que isso, existe a honra em ser o cidadão que participa de um coletivo, representado por uma transcendência racional de natureza cosmológica. 

Talvez este o conceito que se mostra mais distante na sociedade moderna, ver a integração das áreas e a procura de esclarecimento e contemplação do próprio.

O autor então, evidencia esta grande problemática que anda presente no nosso sistema educacional, entendemos que a "virtude social grega" é uma referência, mas que está distante de uma realidade, porque se contrapõe por problemáticas modernas. Entende-se deste modo que o papel da pedagogia como estudo e efetivação acabaria não acreditando em seu propósito, muito menos em seu potencial como sistema educador. Areflexão é válida inclusive para todos os campos do conhecimento, cabe perguntarmos a pergunta essencial: para aonde vamos com esta informação? Qual o propósito disto? Como podemos aplicar? além disso, como podemos incorporar esse saber?. 

São perguntas que direcionam todas as ciências para um caminho ético, consciente e humanitário. Tanto a filosofia, a pedagogia e outras áreas do conhecimento humano, tem cada vez mais o papel fundamental em identificar a necessidade e propósito de determinado conhecimento. Isto porque todos nós temos uma racionalidade capaz de alcançar esclarecimento e direção. Porque somos capazes de sentir e viver a composição e ordenação harmônica do κόσμος (Kosmos). 


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Maquiavel - Os Fins Justificam os meios? (Revisado!)













[Este texto para permite que você pule até o final na conclusão se quiser]

Nicolau Maquiavel é um dos primeiros que contribuiu no fundamento para o conceito de estado. Sendo primordial na ciência política, estratégias de guerra e gerenciamento de pessoas. Sua repercussão foi a síntese do pensamento político de Thomas Hobbes, que teria um estado como definição, dando segmento depois à John Locke e Rosseau.

Seus princípios se baseiam na práxis politica como justificável (uma forma pragmática), buscando atos necessários, independente do que for preciso para controle de um estado.


Considerado um dos primeiros a quebrar paradigmas antigos dos gregos e romanos, no que lhe concerne o governante não seria mais uma pessoa de virtude (Virtude de Sócrates, Platão e Aristóteles). A virtude como lei universal se sustentou até a idade média pelo cristianismo através de Santo Agostinho, Thomás de Aquino e etc.. 

Renunciando a todas as utopias da filantropia, nosso autor analisa o que são os sistemas políticos de forma sólida e realista, defende que um bom gestor uma hora ou outro ficaria refém de ações moralmente questionáveis, mesmo que não queira. 

Tais ações não implicam necessariamente um governante “malvado”, mas um governante que faz o necessário por um ''bem melhor''. Entendendo o poder político como o uso da força para manter a ordem. Existe uma influência imperialista com a idéia do controle de um soberano buscando um resultado de centralização governamental e para este processo de controle estatal, teria a necessidade de tropas nacionais bem consolidadas (influencia meio facista).

Na obra de Maquiavel O Príncipe é uma dedicatória ao Lorenzo Medici O maginífico, que tem como embasamento as dicas de  governança. O príncipe é uma simbologia que retrata não necessariamente o filho do rei, mas o nascimento  de um futuro governante.

A Nova Política

Nicolau Maquiavel desejava uma Itália unificada, sugerindo uma nova forma política que se divide da condução moral e religiosa. A ruptura de Maquiavel reverbera o pensamento político de Thomas Hobbes e os diversos campos do conhecimento. O governante deve executar ações necessárias para manter o poder e o controle do povo. A ordem é articulada por soberano que controla e centralizar o país.  O Príncipe é uma obra com dedicatória a Lorenzo Medici, o magnífico. 

Virtú e Fortuna

A virtú aqui é qualificada enquanto habilidade, aquela que age conforme a necessidade, buscando a solução pratica, não depende de caráter ou princípio. Fortuna entendida como a “sorte”, ou ocasião é um elemento inevitável que a vida pública de um governante perpassa, ele depende da opinião e a influência social. São as causas e condições simultâneas, as oportunidades e adversidades. Mas há outro exemplo de fortuna, a hereditariedade que entrega condições para que se possa governar. A virtude depende unicamente da boa prática e experiência, aquele que age enquanto estrategista. A fortuna por hereditariedade não dá espaço para que o predecessor desenvolva a habilidade e experiência. O príncipe sempre deve aproveitar a fortuna, e desenvolver a virtú essa que se difere da ideia da virtude engessada em princípios, valores e ideologias tornando se vulnerável e previsível. 

Crueldade bem praticada e mal praticada

A crueldade bem praticada registra as medidas “inadmissíveis” para povo. A solução é o tempo para o esquecimento. Esta ação é avaliada, caso seja necessária é feita de uma única vez, ou em determinados intervalos de tempo, já a crueldade mal praticada remete a uma ação sem prudência, tem consequências consecutivas que se multiplicam sem cessar.

Reputação do Príncipe

O goverante deve ser amado ou em último caso, temido, porém nunca odiado. Se não for amado melhor que seja temido, ainda temido consegue conter e evitar rebeliões. O governante odiado consequentemente lida com revoltas e rebeliões. Transmitir a bondade, o altruísmo e a fé formam uma boa reputação, não precisa necessariamente ajustar-se com a imagem que transmite, mas deve mantê-la, poucos vêem o que somos, mas todos vêem o que aparentamos.

Agir como Homem e Animal

Agir como homem significa cumprir as suas palavras, mas os princípios tornam um soberano previsível e limitado. Entre os animais temos o leão, instintivo que usa da força física para botar ordem. A raposa que é audaciosa, no acordo de uma negociação, pode até não cumprir, mas ainda prevê a consequência.



Conclusão - Os fins Justificam os meios?




Todo esse repertório é amoral e desleal, principalmente no  - aparentar-ser. Devido ao interesse próprio.  Maquiavel não só retrata a realidade de um governante, solitária e muitas vezes de aparências.  A própria  realidade da vida na camada social de muitos e o funcionalismo racional do mercado (Weber). O problema não é o sistema econômico, mas os meios pelos quais se articulam ideias do homem que enumera pessoas e retira os seus valores e princípios.

Este filósofo é realista quando pauta a natureza humana sem utopias das virtudes platônicas e religiosas. É notavel que existam pessoas boas, contudo em suas individualidades e contextos (fora da camada social) podem ser más com as outras. Não existe bondade plena em um ser humano. Até mesmo a bondade plena é vista como anti-natural, visto que hoje na psicologia existe uma patologia chamada "Síndrome da Madre Teresa de Caucutá". Veja bem, se você pode ser bom seja o quanto puder, evite ser mau. Mas ser bondoso sempre pode acarretar a você serias consequência. Não seja trouxa. A maldade e a malícia muitas vezes nos defende contra outras maldades e malícias, é inevitável.

Os fins justificam os meios? Depende do caminho que for trilhar.
 Exemplo: Vamos supor que você tem um cargo alto em uma empresa e precisa escolher entre demitir um funcionário por questão financeira. Pela lógica você como deve escolher entre o funcionário que contribui menos para empresa, o menos produtivo. Mas este funcionário está com depressão com filhos para sustentar. Pela sua humanidade você deveria mantê-lo, ajudá-lo, mas não há tempo e nem dinheiro pra isso, então você teria que demitir ele e manter o funcionário que é (forçando a barra) solteiro, folgado, chega no trabalho atrasado cheirando álcool e mora com os pais, por quê? Por quê? Porque é um dos primeiros no Ranking de vendas. Vai deixar a sua empresa falir por coração?. Uma vez me disseram  algo que levo até hoje, foi em um momento difícil:" Empresa não vê coração!, vê resultado" e essa é a realidade, aprendi muito. Uma frase de sobrevivência.

Não é atoa que aqueles que ocupam os cargos mais altos das empresas tem um certo grau ou traço de psicopatia segundo os pesquisadores no campo da psicologia. Existem inúmeras pesquisas por ai que chegam nesse resultado. Para tais cargos é  necessário frieza e pragmatismo pela tomada de decisões estreitas.

Agora se você não lida com esse universo pragmático, não há motivo para se sujeitar a isso. Eu espero nunca ter que passar por este tipo de decisão. Maquiavél esta certo e errado eu diria. Não nos atos, mas sim na forma de ver o mundo pragmático, frio, sem coração. E muitas vezes teremos que enxergar desta forma por sobrevivência.

 Sobre o grau de psicopatia  é muito interessante, comece a observar isso no ambiente corporativo, as vezes não têm no seu trabalho, mas tem em muitos lugares. Já vi também bons líderes, admiráveis que tem empatia, mas em algum grau algumas decisões teriam que ser maquiavelianas. 

(Existe uma diferença do maquiaveliano e o maquiavélico). O maquiavélico é o manipulador negativo, o maquiaveliano é aquele que aplica a manipulação com ponderamento, visando também "o bem". Porque há escolhas que visam carecem desta frieza, e muito mais ligado ao conceito culto filosófico de maquiavel, do que puramente manipular.

O maquiavélico é aquele que só manipula sem o embasamento racional, apenas por manipular. O maquiaveliano faz isso por questão de funcionalidade sistêmica, dentro da "seleção natural da espécie" no mercado de trabalho, por exemplo, na política e em liderança em determinado grupo social.

Sobre o chefe dos líderes ( não os líderes, mas o chefe deles rs) , eu não julgo, cada um no seu lugar. Eu tenho dó na realidade, são pobres de espírito, de coração e não sabem o quanto é prazeroso ter empatia e humanidade. Venderam a humanidade pelo dinheiro e poder, onde há uma certa deturpação sobre o que é felicidade, o que é ser feliz e qual seu sentido no mundo. Não é muito diferente que vender a alma para o diabo. Bom, eles que se resolvam no inferno rs...

De certo modo aprendemos com maquiável para ver o mundo, mas não necessariamente praticar e sim entender o mecanismo social. 
Será que Maquiavel era um psicopata/sociopata? Comente :






Rudá Raoni - O homem dos Lobos (Esboço do conto)

 Apenas uma introdução de um conto inspirador! (Podendo até virar um livro)










Prólogo 

Um curandeiro que carrega o nome Rudá Raoni, um entre os pajés mais sábios de sua região local, teve uma previsão tão clara que viraria uma profecia. Apesar da profecia parecer não ter sentido, ou até mesmo correr por caminhos que poderiam subverter valores da tradição local. Entre as bocas da tribo, soava como uma profanação. Entre os mestres, uma dúvida. Entre os sábios, uma certeza. Entre mestres sábios, uma verdade. Quebra de valores consiste também em mudanças para iluminar o mundo. Nos feixes de luz emanados pelo espírito dos mestres e anciões das mais antigas religiões, carecem de forças mutáveis não tradicionais. A espiritualidade se renova assim como o mundo material. É bem provável que alguns feixes de luz já estão desgastos, manjados. São necessários novos métodos, novas emanações vibracionais, novas cores de luz, novos meios de se criar caminhos, novos caminhos para se criar meios.

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Por onde Rudá andava, os lobos o seguiam, dois. Baltor tinha pelos brancos como a neve, com olhos vampíricos. Podia ver os mortos e espíritos obsessores. O homem dos lobos possuía um olho deles, do qual havia trocado o seu com seu animal. Mas para poder ver através da visão dr Baltor, era necessário o mesmo estar ao seu lado. Atravéz dos olhos da morte, Rudá encaminhava os malfeitores com cantos e rezos realizados pelo sopro do tabaco. Com o sopro correto podia direcionar as almas que aceitariam o livramento das sombras que predominantes 


Ankor tinha pelos marrons terracota, lembravam as montanhas navajo. Os olhos as vezes ficavam tão escuros que em alguns momentos ocultava a sua pupila. Carregado de segredos, eram olhos  que despertava a curiosidade dos homens insensatos. Ankor também era outro que tinha um de seus olhos trocados com o Pajé. Os olhos de Ankor serviam para equilibrar os olhos de Baltor. Um olhar branco veria almas e espíritos. Um olhar marrom veria a terra e as ancoragens. Ancoragem a matéria para ver a realidade física, ver a essência e natureza por trás das matas ou por trás das coisas. Olhos da terra, olhos da morte, um branco, outro marrom. A combinação da dança vida.

A Profecia 

Enquanto Rudá colhia o pé de tabaco em uma tarde ensolarada, ao tocar na planta escuta sua voz. Grande voz do pai e avô tabaco.  A voz dizia: 

- Filho sabes que tem uma missão final por aqui. Aprendeu tudo que já precisava, mas há uma última lição. Saiba que vamos atender o seu pedido. Poderá partir após completar a tarefa final. Para haver um novo ciclo, dando início outras tarefas finais. Para o fim do ciclo dando início a outras tarefas iniciais. Sem resposta sem fim ou início, apenas sentido, um dia fará sentido. 

O pajé disse: 

- Meu pai, não desejo partir. Tenho amor a este mundo, tenho amor a ti, a mãe e aos seres. 

A planta responde 

- Seu desejo sem resposta sem fim ou início, apenas sentido, um dia fará sentido. Assim ja foi dito. 

- Tal desejo não veio ainda, entendo. Só não entendo por que desejar acabar com uma vida antes de seu tempo. 

- Seu desejo sem resposta sem fim ou início, apenas sentido, um dia fará sentido. Assim já foi dito. Não alimente pensamentos, apenas movimentos. Sexta-feira é lua cheia, seu movimento é preparar o chá da mãe e amassar as folhas do pai. Da chacrona, da Mariri e do tabaco, iremos lhe mostrar. 

- Assim foi dito. Apenas movimentos,  entendido. 

As barbas grisalhas de Ruda Raoni,  cobriam quase todo pescoço, representava um sinal de uma vida com muito aprendizado. Correspondiam a atitude, equilíbrio e consciência. Assim ele seguiu, sem alimentar pensamentos apenas atitudes. Começa procurando lenha para cortar e procede na criação de seu rapé, retirado do tabaco que o comunicou. Prepara seu tabaco com rezos específicos e prepara o chá da mãe, retirado da chacrona e do mariri. 

No dia seguinte, devido ao seu respeito na grande aldeia, ele reúne os curandeiros mais velhos e diz: 

- Meus irmãos anúncio a vocês um chamado. Minha missão agora é abrir uma cerimônia, aberta apenas entre os curandeiros mais antigos. Se sentirem no coração o meu chamado, se for do meu merecimento, aceito entre vocês... a cerimônia será daqui a 3 dias, em lua cheia. Já tenho todos os preparativos em minha casa, temos lenha para fogueira, rapé, sanânga, tabaco e coragem. 

Anori, o mais antigo e respeitado da tribo, (nome que se dava a tartaruga Tracajá ) disse: 

- Raoni, Rudá Raoni meu irmão, tem respeito aqui na tribo, tem bons feitos. Tem olhos da morte, olhos da vida e mais importante, tem disciplina. 

Com uma voz mais grossa, alta e forte ele prossegue: 

- Aquele que não vier em sua cerimônia, será punido através das leis do pai dos pais, do criador de todos. Seja morte ou não,  nós apenas lançamos a justiça divina. Sabe que não fazemos nada sem ela, nós os mais velhos só direcionamos as situações para que a justiça seja feita! 

- Eu Já sei Raoni que viria anunciado, e como disse nosso mestre... 

Os dois olharam entre si com foco e seriedade. Disseram em simultâneo. 

"Assim foi dito!" 

A cerimônia 

Algumas horas antes de dar meia-noite, o fogo já estava alto carregado de fenômenos incomuns. Um deles foi as chamas que tomavam formas quase cilíndricas com pontiagudas que se dispersavam ao bater do vento, criando faíscas barulhentas e nervosas. Trazendo algum tipo de aviso. Em volta da fogueira haviam 12 curandeiros, parecido como uma espécie de parlamento ou alto conselho. Entre eles, dois anciões chefes que tomavam as decisões e direcionamentos. Ficaram um em cada ponta do círculo. O primeiro é Anori e o segundo, seu irmão Iberê. Viviam entre os 70 a 80 anos ambos tinham uma saúde juvenil com cara de 60 anos.  

Aos arredores do centro da aldeia haviam matagais de grande largura e comprimento. O horário noturno era até propício para os nativos se perderem fora da aldeia, considerando os perigos, era proibido sair até determinada hora. O próprio Rudá poderia se perder, assim como muitos. Para dar acesso ao caminho da aldeia havia apenas uma trilha, criada em uma entradinha secreta sendo vigiada por dois arqueiros. 


Foi decidido que o ritual seria feito no ambiente externo, localizado no centro da aldeia. Era também um espaço mágico, cercado por pedras protetoras e símbolos de selamento, para que não entre nenhum mal. 


Os doze curandeiros estavam lá, Anori e Iberê ficaram na ponta da roda sentido norte enquanto Rudá se fixou a outra ponta, no sul. Iberê tinha um olhar fixo e quase desagradável frente ao xamã com olhos de lobos. Havia uma desconfiança, aquela do tipo onde "os santos não batem". 


Falando um pouco deste ancião chefe, Iberê é um dos decisores pela tribo, assim como seu irmão Anori. Diferente do irmão que admira a personalidade forte e um tanto subversiva de Rudá, Iberê carregava um ciumes do irmão pelo homem com olhos de lobos. Também não podemos esquecer que o irmão de Anori preservava muito o zelo pela cultura e tradição de seu povo, tudo que diferia tornava-se  ameaça para o futuro da tribo. Alteridade era natureza de Raoni, e o irmão de Iberê tinha uma intuição de que isso seria necessário para o futuro da tribo. Gostava da ideia de mudanças, andava maior parte com Raoni ao invés de Iberê. 

Na cerimônia Raoni disse 

- Todos vocês podem desconfiar, discordar ou não gostar de mim irmãos. Contudo, por respeito a cerimônia, aqueles que levantam olhares hostis e alimentarem pesamentos hostis do que diz respeito a minha pessoa; em nome da medicina e de todo espaço sagrado aqui dirigido, é necessário pedir perdão e correção de imediato.  

Todos olharam para o norte em busca de orientação dos chefes. Iberê ficou desconcertado, olhou para baixo e depois olhou para o fogo. Anori sentiu que a mensagem foi para Iberê devido aos impasses de ambos, que eram muito rotineiros em cerimônias. Em seguida disse: 

- Escutaram o homem! Quem tiver algum problema com Raoni que tomem atitude e se resolvam com ele, mas não neste espaço sagrado, muito menos em cerimônia. Aquele também que é mal visto diante do outro, deve se analisar. Deve ter compreensão por aquele que o rejeita, porque aqui ninguém é santo. 

A cerimônia começou, depois de algumas horas as visões vieram no sopro de tabaco de Raoni. Anori estava muito conectado com o propósito e também sentiu que a mensagem sairia após o sopro. O homem com olhos de lobos pronunciou suas palavras com uma voz bem grossa, séria e forte, tom quase gutural, o som que saía ecoava o círculo, seus olhos começaram a criar luminosidade e os lobos uivavam carinhosamente, fazendo um som de fundo: 

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